Ensino

Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência: aprender para transformar: o papel da educação e da ciência na sociedade

Pesquisadoras da Unesc compartilham trajetórias que reforçam a importância da presença feminina na ciência e na educação. (Foto: Daniela Savi/Agecom/Unesc)

O interesse pela ciência pode nascer de muitas formas, seja no contato com a natureza, no gosto pela leitura, na curiosidade aguçada da infância, na admiração por alguém ou até no desejo de inventar. Na Unesc, histórias como essas se multiplicam e ganham força por meio de mulheres que hoje constroem trajetórias de sucesso na pesquisa, realizam-se profissionalmente e contribuem para o avanço do conhecimento científico.

Nesta quarta-feira (11/2), quando se celebra o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, a Universidade destaca a trajetória de pesquisadoras que representam a presença feminina na Instituição. Hoje, a Universidade conta com 45 mulheres pesquisadoras; 298 mestrandas e doutorandas; e 195 na Iniciação Científica.

Para a reitora em exercício Gisele Silveira Coelho Lopes, contar com uma equipe feminina de pesquisadoras e fazer parte deste coletivo de cientistas é motivo de felicidade. “A Unesc tem direcionado seus esforços para promover o desenvolvimento e melhorar a qualidade de vida da sociedade por meio de investimentos consistentes em ciência e pesquisa. A presença de mulheres dedicadas, talentosas e que se destacam em suas áreas fortalece ainda mais esse compromisso. Elas não apenas contribuem para a formação de estudantes e orientandos, mas também inspiram novas gerações, abrindo caminhos e ampliando horizontes na ciência”, destaca.

Segundo Gisele, a data vai além da celebração individual. “Neste Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebramos também o impacto coletivo dessas pesquisadoras no avanço científico e no incentivo às futuras cientistas”, completa.

Na mesma perspectiva, a pró-reitora de Pesquisa, Pós-Graduação, Inovação e Extensão, Vanessa Moraes de Andrade, reforça a importância de estimular meninas desde cedo a se enxergarem como cientistas. “A curiosidade, a criatividade e o pensamento crítico não têm gênero. Quando uma menina acredita que a ciência também é um lugar para ela, ampliamos possibilidades, fortalecemos a pesquisa e construímos uma sociedade mais diversa e inovadora”, afirma.

 

Da curiosidade à pesquisa científica

 

Desde a infância, Júlia Gava Sandrini, de 24 anos, sempre demonstrou grande curiosidade pelo mundo natural e pela forma como a vida se organiza. Foi na Biologia que encontrou o espaço ideal para alimentar esse interesse, transformando curiosidade em pesquisa científica. Durante a graduação, na sexta fase do curso, iniciou uma bolsa de iniciação científica no Herbário Pe. Dr. Raulino Reitz, experiência que marcou definitivamente sua trajetória acadêmica.

“Foi ali que percebi que aquele era o lugar onde eu queria estar”, relembra. Ao desenvolver projetos e auxiliar colegas no laboratório, encontrou na botânica sua principal área de interesse. Em 2022, iniciou uma nova bolsa de iniciação científica voltada ao estudo das plantas da Serra do Rio do Rastro, tema que se tornou o foco de sua pesquisa de mestrado, concluída em 2025.

Com o avanço dos estudos, cresceu também a preocupação com as pressões ambientais sobre a flora local, como obras em áreas naturais, turismo intenso e espécies exóticas invasoras. “Esse processo me levou a refletir sobre meu papel como pesquisadora e sobre a responsabilidade de compartilhar o conhecimento produzido”, destaca.

A partir dessa inquietação, Júlia transformou sua pesquisa em um livro de divulgação científica voltado a crianças e adolescentes das escolas da região. A obra busca aproximar o público jovem da flora nativa da Serra do Rio do Rastro e sensibilizar para as causas ambientais desde cedo. A personagem principal, Flora, foi criada intencionalmente como uma menina cientista. “A ideia foi tornar o conteúdo acessível e, ao mesmo tempo, convidar as meninas a se reconhecerem na história. A Flora mostra que a ciência é um caminho possível”, explica.

Durante o mestrado, foram registradas 317 espécies de plantas nos paredões rochosos da Serra, sendo 20 ameaçadas de extinção e 21 endêmicas de Santa Catarina. Entre elas está a margaridinha-das-nuvens (Hysterionica pinnatisecta), espécie restrita a um trecho de apenas 800 metros da rodovia. “Além da paisagem impressionante, a Serra abriga uma flora única e extremamente sensível, que muitas vezes passa despercebida”, ressalta.

Desde o lançamento, o livro Flora na Serra do Rio do Rastro já alcançou cerca de 2.200 pessoas, com mais de 1.400 exemplares distribuídos gratuitamente em escolas públicas e eventos comunitários de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.

Atualmente no doutorado, Júlia segue aprofundando os estudos sobre as plantas da região dos Aparados da Serra Geral e fortalecendo o diálogo entre universidade, escola e comunidade. Para meninas que sonham com a ciência, deixa um recado: “Sigam o que desperta empolgação e sentido. A ciência se torna muito mais prazerosa quando é movida pela curiosidade e pela paixão”, ressaltou.

 

Ciência, educação e transformação

 

Para Giani Rabelo, a ciência nunca foi apenas um caminho profissional. Sempre foi escolha, resistência e compromisso. Integrante do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Unesc, a doutora em Educação construiu, ao longo de quase 30 anos, uma trajetória movida pela curiosidade intelectual, pela paixão pela pesquisa e pela certeza de que o conhecimento transforma pessoas e realidades. 

Formada em Serviço Social, Giani iniciou sua vida profissional atuando diretamente na área, mas foi no mestrado em Educação que encontrou um espaço onde perguntas ganhavam profundidade e sentido. O desejo de pesquisar, ler mais e compreender as teorias que explicam a sociedade levou-a a reconhecer a centralidade da ciência em sua atuação. Sua pesquisa sobre o trabalho das mulheres na indústria do vestuário no Sul de Santa Catarina, nos anos 1990, e as novas exigências impostas pela globalização, marcou o início de uma relação duradoura com a investigação científica, uma relação que, desde então, só se fortaleceu.

A pesquisa, para Giani, sempre foi coletiva. Desde 2001, sua trajetória acadêmica é marcada por trocas constantes, participação em grupos e eventos científicos e pelo compromisso com a formação de outras pessoas. Ao longo desse percurso, ensinou, orientou e acompanhou a formação de graduandos, mestres e doutoras, aprofundando investigações sobre história das mulheres, memória, instituições escolares e preservação do patrimônio educativo. Um caminho construído com diálogo, escuta e colaboração, valores que ela também defende como essenciais à ciência.

O ingresso na docência universitária ocorreu paralelamente ao mestrado e trouxe novos desafios. Foi nesse processo que sentiu a necessidade de avançar para o doutorado, etapa em que consolidou sua identidade como pesquisadora. Nesta etapa, a ciência passou a ocupar um lugar ainda mais central em sua vida, não apenas por meio das publicações e eventos, mas pela criação e fortalecimento do Grupo de Pesquisa História e Memória da Educação, espaço de produção coletiva de conhecimento e de defesa da memória educativa regional.

Essa caminhada, no entanto, nunca esteve dissociada da vida pessoal. Um dos maiores desafios de sua trajetória foi conciliar a maternidade com a vida acadêmica. A conclusão do mestrado aconteceu enquanto cuidava de uma filha pequena, dividindo o tempo entre estudos, escrita e o cotidiano familiar. Anos depois, ao ingressar no doutorado, viveu novamente essa experiência ao iniciar o curso grávida e, posteriormente, com um filho pequeno, enfrentando longas viagens até a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. No mesmo período, assumiu a Secretaria de Educação de Criciúma, acumulando funções, responsabilidades e sonhos. Um tempo intenso, atravessado por cansaço, mas também por apoio, parceria e determinação.

Atualmente, Giani também desenvolve pesquisas com biografias e cinebiografias, trabalho que se materializa no canal Memórias e Histórias da Educação, no YouTube. Por meio de documentários sobre professoras, patrimônio educativo e história da educação, o projeto contribui para a produção e difusão do conhecimento científico, além de auxiliar diretamente a prática em sala de aula. O uso do audiovisual como linguagem científica e pedagógica amplia as formas de ensinar e aprender, dialoga com a cultura dos universitários e fortalece a formação ao abordar memórias docentes, centros de memória, museus escolares e a preservação do patrimônio educativo.

Para a pesquisadora, a Universidade torna-se mais acolhedora e estimulante para as mulheres à medida que elas passam a ocupar esse espaço de forma mais ampla, inclusive em cursos e áreas historicamente associados aos homens. “Romper barreiras de gênero é essencial, já que os papéis do masculino e do feminino são construções sociais que podem, e devem, ser desconstruídas para reduzir desigualdades”, pontua.

Nesse processo, ela destaca a importância de ampliar a diversidade nas universidades, especialmente com a presença de mais mulheres negras entre estudantes e na docência, garantindo representatividade e oportunidades equitativas.

“A ciência exige persistência, mas também paixão”, resume. Para quem está começando, a mensagem é clara: não desistir. “Apesar de ter sido historicamente um espaço masculino, a ciência está mudando. Ela precisa das mulheres, de seus olhares, experiências e vozes”. Às meninas, o incentivo é direto e afetuoso: estudar, sonhar alto e ocupar os espaços da pesquisa, tornando-se mestres, doutoras e pós-doutoras.

Para Giani, fazer ciência é escolher aprender sempre, construir caminhos e transformar o mundo ao redor. “A leitura, o estudo e o debate em um ambiente democrático ampliam perspectivas, aprofundam olhares e promovem transformação. O conhecimento precisa servir para transformar consciências e realidades, criando relações mais solidárias e uma vida com mais sentido”, conclui.

Para a reitora em exercício, as pesquisadoras Giani e Julia se encontram não apenas no espaço da Universidade, mas na forma como acreditam no poder transformador da educação. “Enquanto Giani carrega no olhar a experiência de quem construiu caminhos e abriu portas, Julia traduz o presente em movimento, com a inquietação criativa de quem sonha e faz. São gerações que não se sobrepõem, se complementam. Uma inspira pelo legado, a outra pela potência do agora. Juntas, revelam que a Universidade é feita de continuidades: de mãos que acolhem, de vozes que conduzem e de sonhos que seguem sendo cultivados todos os dias”, finalizou Gisele.

 

Prêmio Mulheres na Ciência

Como parte das ações institucionais, a Unesc lança no dia 8 de março a 4ª edição do Prêmio Mulheres na Ciência, em alusão ao Dia Internacional da Mulher. A iniciativa reconhece e incentiva a participação feminina na pesquisa científica.

Criado em 2023, o Prêmio destaca o papel das mulheres na produção do conhecimento e no avanço científico, com inscrições abertas em três categorias: Iniciante, Intermediária e Plena, contemplando pesquisadoras em diferentes estágios da carreira.

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