
Com o Auditório Ruy Hülse lotado e olhares atentos, foi aberta na noite desta quinta-feira (4/4) a 6ª edição do Simpósio Land de Autismo. O evento iniciou com a palestra “Do laboratório à sala de aula: como a ciência pode transformar a educação do autista”, ministrada pela professora e doutora Cinara Ludvig Gonçalves, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCS) da Universidade.
Promovido pelo Laboratório de Pesquisa em Autismo e Neurodesenvolvimento (Land), o simpósio deste ano tem como tema central “Neurociência da Educação no Autismo: Das Bases Neurobiológicas às Práticas Pedagógicas”. A proposta é promover um espaço de diálogo entre ciência, educação e inclusão, com foco no Transtorno do Espectro Autista (TEA).
“A ciência tem avançado muito nos últimos anos em relação ao TEA, e isso exige que repensemos as práticas pedagógicas. O autismo está cada vez mais presente em nosso cotidiano, e discutir educação inclusiva é essencial para garantir um futuro com mais respeito, acesso e qualidade de vida”, destacou Cinara, que também é organizadora do evento.
Conhecimento científico
Durante sua fala, a pesquisadora frisou a importância do conhecimento científico produzido na Universidade e em outras instituições de ensino superior como norteador das melhores práticas educacionais, especialmente no acolhimento e desenvolvimento de estudantes autistas.
“A ciência básica nos ajuda a compreender os mecanismos cerebrais e comportamentais do autismo; a ciência clínica avalia intervenções em contextos reais; e a escola é o espaço onde tudo isso precisa se concretizar, onde a transformação é mais urgente”, explicou Cinara.
Segundo ela, o professor tem o papel fundamental de traduzir o conhecimento científico em práticas pedagógicas cotidianas. “Não é necessário ser cientista, mas é fundamental ter acesso a informações de qualidade. A formação continuada e interdisciplinar é indispensável”, enfatizou a professora.
A pró-reitora de Pesquisa, Pós-Graduação, Inovação e Extensão, Gisele Coelho Lopes, salientou que cada conteúdo compartilhado tem um valor enorme, como esse seminário. “Tenho certeza de que todas as pessoas que se inscreveram para estar neste espaço têm um real interesse pela causa. E falo isso também por mim. Nós precisamos e me coloco nessa condição, buscar o letramento necessário para compreender, acolher e conviver com este público que, para mim, ainda é novo no dia a dia, mas que exige de todos nós um processo de aculturação frente a essa nova realidade que estamos vivendo e que precisa ser valorizada”, salientou Gisele.
“Se, por acaso, deixarmos de atender a alguma necessidade ou falhamos em algum aspecto, saibam que estamos sempre abertos a corrigir e evoluir. Nosso compromisso não é com o erro, é com o acerto. É com o apoio, com a ampliação de tudo aquilo que fazemos com responsabilidade e dedicação. É isso que nossa prática institucional e nosso dia-a-dia nos ensinam todos os dias. Parabéns a todos por escolherem este espaço para construir suas trajetórias. Que seja um caminho de crescimento, acolhimento e pertencimento para todos”, complementou Gisele.
A coordenadora do PPGCS, Josiane Budni parabenizou ao grupo de pesquisa Land por promover o simpósio desde 2019. “É um orgulho imenso contar com vocês como parte ativa do nosso programa. O PPGCS não alcançou a nota 7 da Capes por acaso. Essa excelência se deve ao trabalho sério e comprometido de pessoas como vocês, que fazem a diferença todos os dias. O simpósio, que já acontece há seis anos, tem esse propósito: reunir pesquisadores, professores, profissionais da saúde e familiares de pessoas autistas, promovendo conhecimento, inclusão e, neste ano em especial, discutindo caminhos para melhorar a aprendizagem de pessoas com TEA”, ressaltou.
A secretária Municipal de Educação de Criciúma, Geovana Benedet Zanette, também esteve presente no evento e destacou que a iniciativa é de extrema importância, pois promove uma discussão necessária e promove conhecimento contínuo aos professores da rede municipal de ensino. “Trabalhamos intensamente para levar informação e, acima de tudo, respeito porque quem se informa, respeita. Essa é a base da empatia: permitir que pais, professores e toda a comunidade compreendam a causa e realmente a abracem”, comentou.
“Estamos em fase de elaboração, em parceria com a Fucri/Unesc, de um espaço específico para atender nossas crianças autistas da Rede Municipal de Educação. Atualmente, temos 724 alunos diagnosticados com TEA, e essa estrutura será fundamental para oferecer um atendimento mais adequado. A proposta é começar pelo contraturno, atendendo uma parte dessas crianças. Sabemos que não conseguiremos alcançar todos de imediato, mas é essencial dar o primeiro passo, e o mais importante é justamente isso: começar”, acrescentou Geovana.
Mais que um evento
A representante da comunidade autista de Criciúma, Ana Paula Rabelo Gonçalves, destacou a importância do evento para a valorização da inclusão. “É uma honra estar aqui representando a comunidade autista. Este não é apenas um evento que fala sobre o TEA, sobre o autismo, mas que olha para o autista como pessoa, reconhecendo seu protagonismo e oferecendo a representatividade que tanto significa para nós. Somos pessoas resilientes, e agradeço por darem visibilidade e espaço para cada autista que está aqui mostrando seu talento. Vidas autistas importam, e o lugar de autista é em todo lugar”, afirmou Ana.
A Sargento do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina, Ana Paula Souza de Freitas, lembrou sobre parceria entre o grupo de pesquisa em autismo do Laboratório de Pesquisa em Autismo e Neurodesenvolvimento (Land) da Unesc e o Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina (CBMSC), por meio do protocolo operacional padrão para Atendimento Pré-Hospitalar (APH) voltado a pacientes autistas. A iniciativa visa aprimorar a qualidade e a sensibilidade no atendimento emergencial desse público, ratificando o compromisso da Universidade com a inclusão.
“Ao longo do primeiro ano, o protocolo possibilitou que 433 atendimentos fossem direcionados para APH, além de 16 ocorrências envolvendo busca, resgate e salvamento, nove ações preventivas, três apoios e duas classificações diversas”, contou a sargento.
Entre as principais situações atendidas destacaram-se: 14,3% convulsões; 12,6% queda; 9,36% desmaio; 8,71% emergência psiquiátrica; 3,92% intoxicação exógena.
Arte e inclusão também têm espaço no Simpósio
Simultaneamente ao evento, ocorre a 2ª edição da Exposição “Arte Dentro do Espectro”, um espaço dedicado à expressão artística de pessoas autistas. As obras, criadas por artistas dentro do espectro, emocionam e inspiram os visitantes, reafirmando a importância de valorizar o talento e a sensibilidade presentes em cada indivíduo. Essa exposição tem apoio da Diretoria de Extensão e Ações Comunitárias da Universidade.
A realização do Simpósio também é alusiva ao Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado no início de abril. A iniciativa conta com apoio do PPGCS e do Centro Especializado em Reabilitação (CER).
Além da palestra de abertura, a noite contou com outras contribuições. A pedagoga e especialista em educação especial Luciana Brites conduziu a palestra “Como o cérebro aprende?”, seguida pela médica Margherita Cuccovia Midea, com o tema “Um programa para funcionar na vida: currículo funcional natural”. A programação da primeira noite foi encerrada com a fala do médico Júlio Santos sobre “Aprendizagem visível no autismo”.
Programação de sábado (5/4):
O segundo e último dia de evento segue com uma programação intensa e diversificada:
Movimento e aprendizagem: O papel da atividade física e da estimulação motora em crianças com TEA – com o médico Fabricio Bruno Cardoso;
PEI – A chave para o sucesso escolar personalizado – com o médico Fabio Oliveira;
Diagnóstico precoce do autismo: o que realmente importa? – com o médico Jaime Lin;
Diagnóstico de TEA, desafios e atendimento às famílias atípicas – com a doutoranda e autista Priscila Schacht Cardozo e o psicólogo Zolnei Vargas de Córdova;
Inteligência artificial e transtorno do espectro autista: possibilidades de suporte terapêutico e diagnóstico assistido – com o professor Jônata Tiska Carvalho, da UFSC.
- Evento segue até este sábado (5/4) na Unesc, reunindo especialistas, educadores e famílias em torno das práticas pedagógicas baseadas em evidências científicas. (Fotos: Marciano Bortolin/Agecom/Unesc)