
“Poeta, coletora de terras e plantas, apreciadora da natureza, amiga de tantos e tantas, tímida e forte”, estas foram algumas palavras destacadas entre as inúmeras mensagens de carinho dos amigos e amigas da artista e professora Odete Angelina Calderan, durante a cerimônia de homenagem realizada em memória a ela. A celebração conduzida na noite dessa quarta-feira (5/06), pela coordenadora do curso, Daniele Cristina Zacarão Pereira, emocionou a todos com as palavras calorosas e recordações da trajetória e do legado da artista que faleceu no último domingo (2/06).
Para o encontro realizado no Auditório Ruy Hülse, foi feita a proposta para que todos levassem consigo flores colhidas ao longo do caminho. Além disso, cartas repletas de palavras afetuosas foram dedicadas à artista, acompanhadas por apresentações musicais, como a da professora Rafaela Ribeiro Pereira, cuja interpretação da canção “Tempo Perdido”, da banda Legião Urbana, uma das preferidas de Odete, emocionou os presentes.
Esculturas dispostas no palco do auditório fizeram parte da exposição intitulada “O Céu e o Silêncio”, um dos muitos projetos conduzidos por Odete em colaboração com os estudantes.
O momento de celebração foi organizado pelos cursos de Artes Visuais, Design, Teatro e Artes de Tubarão e Laguna. Entre os presentes, além dos professores, amigos e familiares, estiveram presentes a diretora de Extensão e Ações Comunitárias da Unesc, Fernanda Sônego; a professora Eloir Mondardo Cardoso, representando a Assessoria Pedagógica da Instituição; e a professora de Artes Visuais da Unesc, a artista Angélica Neumaier.
Flores para Odete
O acadêmico Fernando Santiago das Chagas Junior, revelou a inspiração por trás da sugestão de trazer flores encontradas no caminho para a cerimônia. Ele refletiu sobre o impacto que Odete teve em sua percepção do mundo e de si mesmo. “Odete me fez enxergar o mundo, me fez perceber minha existência nele. A intervenção das flores trata-se de se relacionar com o mundo e a paisagem ao longo da jornada. Ela estará sempre presente em cada galho, cada pedra, cada ramo, cada flor”, expressou Fernando, que foi o responsável pela ideia da intervenção floral.
Na ocasião, a representante da família da professora Odete Calderan, a
coordenadora do setor de Arte e Cultura da Unesc, a professora Amalhene Baesso Reddig, conhecida como Lenita, compartilhou uma comovente carta escrita pelos entes queridos.
“Nossa família Calderan, em luto e profundamente entristecida pela partida prematura de nossa amada Odete, expressa profunda gratidão por todas as manifestações de carinho e apreço dirigidas à nossa artista visual e professora do curso de Artes Visuais da Unesc, onde foi parte integrante por 13 anos. Temos a certeza do valioso legado que Odete deixa”, declarou Lenita em nome da família, especialmente em nome da mãe de Odete, Jandira.
Coleção de boas memórias
A artista e estudante Hilda Maziero emocionou a todos ao compartilhar as lembranças ao lado de Odete. “Agradeço por ter compartilhado esta jornada contigo. Sentirei falta da tua voz amorosa, do teu sorriso acolhedor, do teu abraço afetuoso e dos teus olhos atentos e saudosos. Nossas conversas despretensiosas se transformaram em terrenos férteis de possibilidades criativas. Amava criar ao teu lado”, expressou Hilda, e acrescentou que levará os preciosos ensinamentos de Odete para toda a vida.
A mensagem da acadêmica Paloma de Sousa Teixeira, lida pela presidente do Centro Acadêmico de Artes Visuais Júlia da Rosa, exprimiu afeto e gratidão pela forma como Odete conduzia as aulas. “Odete, como um cometa, você é rara e única. Passou por nossas vidas irradiando brilho nos olhos e esperança por algo novo. Transformava o que era complicado em algo simples. Amor, carinho e memória são as palavras que te definem”, declamou Júlia da Rosa.
O estudante do curso de Artes Visuais da turma de 2021, Gustavo Marques Fernandes, trouxe à tona uma lembrança nostálgica da homenageada. “Então, é sexta-feira. O ônibus para, eu desço, caminho sobre as pedrinhas do estacionamento, atravesso os corredores movimentados e já avisto o verde das árvores do bloco Z, me sinto em minha segunda casa. Em frente ao Ateliê de Cerâmica, ou melhor, ao ateliê da professora Odete, lá está você, com o sorriso radiante, imersa na aula, acolhendo cada um de nós. Como seria bom poder congelar esse momento”, narrou Gustavo, ao expressar a gratidão pela professora.
Larissa Aparecida do Nascimento, egressa e monitora do Ateliê de Cerâmica e Escultura da Unesc, expôs a vivência do dia a dia de trabalho ao lado da professora Odete. “Tive a honra de conviver contigo, de ser aprendiz como monitora. Conversávamos nos dias de aula, quando você chegava mais cedo, acompanhando e auxiliando no processo de organização e preparação do ateliê e das aulas. Durante a jornada como monitora, você sempre me incentivou em minha produção artística e nas pesquisas. Que eu possa honrar a memória a cada vez que eu me conectar com a argila e valorizar o seu trabalho”, discursou Larissa, e ressaltou a influência positiva e inspiradora de Odete na trajetória artística.
Cartas de gratidão
A professora Aurélia Honorato, representante da coordenação dos cursos de Artes Visuais e Teatro, bem como dos cursos de
Artes de Laguna e Tubarão, emocionou a todos ao ler uma carta redigida pelos estudantes.
“Professora de cerâmica, Odete não apenas compartilhava o conhecimento sobre a arte de moldar o barro, mas também ensinava a importância de moldar vidas, com paciência, dedicação e amor. Possuía a rara habilidade de transformar matéria bruta em arte, assim como transformava os estudantes em verdadeiros artistas. O legado transcende as paredes da sala de aula”, proferiu Aurélia, em um trecho da mensagem escrita pelos acadêmicos do curso de Artes de Laguna.
Na carta de homenagem redigida pelos estudantes do curso de Artes de Tubarão, também representados pela professora Aurélia, uma mensagem ressalta o apreço e a visão especial que tinham de Odete. “Nossos corações estão pesados pela perda de alguém tão querido. Lamentamos a partida, querida professora, mas celebraremos para sempre a passagem inesquecível em nossas vidas. O brilho dos olhos, o calor do sorriso e a bondade da alma serão eternamente lembrados em nossos corações”, discorreu Aurélia.
Na leitura da carta pelo professor Mikael Miziescki, representando o coordenador do curso de Design da Unesc, professor João Luis Rieth, um tom de saudade permeou suas palavras. “Minha querida Odete, guria, você nos pregou uma peça. Partiu sem aviso prévio, deixando um vazio imenso em nossas lembranças e em nossos corações. Foi uma experiência enriquecedora compartilhar projetos e descobertas com você, enquanto os estudantes mergulhavam no mundo da cerâmica. Embora o ateliê esteja fisicamente vazio, tua energia ainda paira lá, aquecendo o espaço com memórias preciosas”, exprimiu Mikael.
Reflexões espirituais
O padre Tiago Comin, presente na solenidade, trouxe conforto aos presentes por meio de uma reflexão baseada nas Sagradas Escrituras. “Queridos amigos da professora Odete, neste trecho do Evangelho de São João, contemplamos o dom da vida e aquilo que lhe confere sentido. São as relações que estabelecemos e como as vivemos que dão significado a tudo o que fazemos. Muitas vezes, descobrimos isso tarde demais em nossas vidas”, discursou o padre.
“O que preenche nossos corações e nos reúne aqui hoje é o elo de amizade por uma pessoa tão humana, bela, sensível e gentil como Odete, uma mulher que deixa lacunas em nossos corações. Este é o momento de olhar para Odete e nos inspirarmos em sua capacidade de tocar não apenas o barro e a argila, mas também o mais profundo de nossos corações”, declarou Tiago ao trazer consolo e reflexão aos convidados.
Para encerrar as homenagens, um vídeo produzido pelo acadêmico Matheus Philippi Martins foi apresentado, e evocou lembranças e momentos especiais compartilhados com a professora Odete.
Após a exibição do vídeo, os convidados se dirigiram até o Bloco Z, onde, em um gesto simbólico, juntos instalaram flores em frente ao ateliê de escultura e cerâmica, em que Odete costumava lecionar.
Trajetória
Odete Angelina Calderan nasceu em 1964, na cidade de Sananduva, Rio Grande do Sul. Na jornada acadêmica, se graduou em Desenho e Plástica em 1989 e se especializou em Design para Estamparia em 1994, ambos pela Universidade Federal de Santa Maria. A ligação com a cerâmica teve início em 1992, durante um estágio na Eliane Revestimentos Cerâmicos em Cocal do Sul, onde mais tarde trabalhou de 1994 à 1998, na colaboração do setor criativo da empresa e participou de cursos ministrados por Jussara Guimarães.
Em 2002, Odete deu à luz ao filho Gabriel, que se tornou o grande amor da vida. A trajetória acadêmica ganhou um novo marco em 2011, quando concluiu o mestrado em Artes Visuais pela Universidade Federal de Santa Maria. Posteriormente, em agosto de 2020, ingressou no Programa de Pós-graduação em Artes Visuais na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), na qual desenvolveu pesquisas sobre processos artísticos contemporâneos sob orientação da professora Sandra Faveri.
Na Unesc, Odete atuou como professora nos cursos de Artes Visuais, Design e nas turmas de Licenciatura em Artes nos municípios de Tubarão e Laguna. Além disso, foi membro do Grupo de Pesquisa em Arte (GPA). O legado artístico pode ser apreciado em diversos espaços da universidade, como o “Painel Cerâmico Colaborativo Plural”, localizado na entrada da Sala Edi Balod, alusivo ao aniversário de 46 anos do curso de Artes Visuais, o “Projeto Jardim: Urnas Cerâmicas ( cápsula do tempo) e pau-brasil”, localizado na Praça do Estudante e a produção “Um todo em Partes II”, que integra o acervo artístico e cultural do setor de Arte e Cultura da Unesc.
Por meio da dedicação e talento, Odete deixou uma marca permanente no meio acadêmico e artístico.



























































