
A campanha Fevereiro Roxo ressalta, em todo o país, um movimento de conscientização sobre doenças crônicas sem cura, mas com possibilidade de controle clínico e funcional. Entre elas está a fibromialgia, condição marcada por dor difusa, fadiga recorrente, além de impacto cognitivo e emocional, que ainda enfrenta subdiagnóstico e preconceito. O eixo central da mobilização envolve diagnóstico precoce, acompanhamento contínuo e acolhimento social.
Na saúde pública, a fibromialgia impõe desafios de reconhecimento e manejo. Como não há marcador laboratorial específico, o diagnóstico depende de escuta qualificada, entrevista clínica e exclusão de outras doenças. Esse padrão exige tempo, preparo técnico e abordagem multidisciplinar.
“O estresse crônico está entre os principais gatilhos. Além disso, a depressão mal conduzida aumenta o risco. A doença também dialoga com fatores hormonais, sedentarismo e histórico de traumas. Dor difusa e espalhada pelo corpo, sono não reparador e fadiga com mínimos esforços, por pelo menos três meses, compõem o quadro recorrente”, explica a fisioterapeuta e pesquisadora do Ambulatório de Atenção à Pessoa com Fibromialgia (Amasf), da Unesc, Kálita Nunes.
Diagnóstico clínico e prevalência
As estimativas nacionais indicam prevalência entre 2,5% e 5% da população. Ao dimensionar esse indicador para a realidade local, o contingente se torna expressivo. Em Criciúma, por exemplo, estima-se que cerca de seis mil pessoas convivam com a fibromialgia.
“As estatísticas globais apontam três mulheres para cada homem. Entre os motivos, estão sobrecarga de funções, dupla jornada e contextos de vida adversos. Mulheres que trabalham fora, cuidam da casa e dos filhos, muitas vezes sem rede de apoio, acumulam fatores de risco. Estudos mostram, ainda, relação com fatores hormonais. Quando isso se soma a sedentarismo e doenças mal tratadas, o patamar de vulnerabilidade aumenta”, acrescenta.
“Não existe um vírus ou bactéria que cause fibromialgia. O diagnóstico é clínico. Por isso, o profissional precisa conduzir uma entrevista mais longa e detalhada. Embora qualquer médico possa fechar o diagnóstico, algumas especialidades aparecem com mais frequência nesse processo, como neurologia e reumatologia, além do suporte de equipe multidisciplinar”, acrescenta.
Impactos funcionais e resposta em rede
A profissional reforça que, sem condução adequada, a fibromialgia compromete a capacidade funcional e social, impossibilitando, até mesmo, a realização de tarefas diárias. “A pessoa sente fadiga até em atividades simples. Não consegue acompanhar grupos, reduz participação social e perde desempenho em tarefas domésticas e profissionais. Isso conduz a sofrimento psíquico que atinge também quem está ao redor”, observa Kálita.
O tratamento, segundo a pesquisadora, sustenta melhor resultado quando ocorre em rede. “O padrão mais resolutivo envolve psicólogo, fisioterapeuta, profissional de Educação Física, farmacêutico, nutricionista e enfermagem. São vários aspectos envolvidos, e a equipe precisa dialogar. No ambulatório, os casos passam por discussão conjunta para ajuste de conduta”, “Estudos mostram relação com fatores hormonais. Quando isso se soma a sedentarismo e doenças mal tratadas, o patamar de vulnerabilidade aumenta”, cita.
Atendimento
Entre as ações ofertadas pelo Amasf da Unesc estão hidroterapia, hidroginástica, exercícios físicos orientados, acompanhamento psicológico, farmacêutico e nutricional, atendimento odontológico, consultas de enfermagem, grupos terapêuticos e iniciativas educativas. Esses cuidados seguem indicadores individuais e planos personalizados. O ambulatório registra mais de 10 mil atendimentos até 2025 e completa seis anos de atuação em 2026.
O serviço atende pacientes com diagnóstico já estabelecido e também orienta quem apresenta sintomas. “A recomendação é procurar a Unidade Básica de Saúde, relatar o quadro e realizar exames para descartar outras doenças antes do fechamento clínico”, diz.
Legislação
Em vigor desde janeiro deste ano, a Lei 15.176/2025 reconhece a fibromialgia e doenças correlatas como condições que podem configurar deficiência, garantindo atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e, mediante avaliação biopsicossocial, direitos como isenção de impostos, aposentadoria especial e cotas em concursos. A norma busca reduzir desigualdades para pacientes com dores crônicas.
“Cada caso precisa de avaliação. Alguns pacientes perdem capacidade laboral e renda, o que agrava a vulnerabilidade. Benefícios como prioridade em filas e transporte para tratamento dependem dessa análise. Perguntar, escutar e estar junto faz diferença. O preconceito ainda existe, embora a dor seja real. Informação qualificada e empatia conduzem a melhor resposta social”, conclui Kálita.
Outras informações sobre o Amasf podem ser obtidas por meio do contato (48) 3431-4591.

